«O golpe de estado militar do dia 25 de Abril de 1974 derrubou, num só dia, o regime político que vigorava em Portugal desde 1926, sem grande resistência das forças leais ao governo, que cederam perante a revolta das forças armadas.»Esta Revolução, sem «sangue», teve como grande objectivo dar Liberdade aos portugueses. Aparentemente, temos vivido livres, pelo menos mais livres do que até então.
Viveremos hoje efectivamente num tempo em que podemos pensar e agir livremente? A resposta a esta questão não se antevê fácil. Certo, certo é que tem-se vindo a adensar uma espécie de neblina censória, impositiva, centralizadora e algo castradora do livre pensamento. Quem quer acalentar a esperança de singrar, no seio de determinados círculos de poder, tem que suspender o pensamento próprio e formatar-se, isto é, vestir um fato que é talhado à medida.
Talvez a celebração da revolução dos cravos se esteja a tornar anacrónica, devendo esta ser celebrada e glorificada 24 dias antes, naquele dia em que todos podemos mentir, efabular, sem que daí advenham grandes males ao mundo: o dia 01 de Abril, o dia das mentiras.
Entretanto, resta-nos aguardar pelos discursos de circunstância que nos prendem ao sofá, especialmente a seguir a um belo repasto regado por um bom néctar de Baco. Aproveitemos! Quando a ASAE descobrir como é processada a produção dos «sumos de uva» tratará, o seu esmerado chefe, de formar uma equipa de exterminadores de lagares e pipas de carvalho, as últimas feitas em madeira.



3 comentários:
Sucedeu o 25 de Abril o mesmo que com todos os outros feriados nacionais: gastou-se. O 1 de Dezembro já não é uma celebração da libertação nacional do jugo espanhol - é tão-só mais um dia de descanso; o 10 de Junho já não é a celebração da Pátria e dos seus maiores, de que Camões é o nome cimeiro - é mais uma manhã em que se pode dormir. E o 25 de Abril foi pelo mesmo caminho: a carga simbólica de que se revestia, de cessação da tirania, de garantia dos direitos civis, foi obliviada pela Nação. É, como todos os os outros feriados, uma oportunidade para a sorna - nem para a festa, para o arraial do tipo do dos santos populares (como aconteceu com o 14 de Julho em França) 0 25 de Abril serve.
Há muito pouca cultura cívica em Portugal, muito pouca importância dada à História Pátria e às suas datas emblemáticas. A Democracia, sejamos claros, tem toda a culpa disso: o Estado Novo tratava, certamente por questões propagandísticas mas ainda assim com desvelo, da comemoração de todos os feriados nacionais, e a revolução teve a falta de lucidez de confundir esse culto da virtude cívica com despotismo. Fez outras confusões, que também pagamos caro: mas esta acarretou o desligamento entre o Povo e a sua História, e a sua Identidade, e aquilo que lhe dá fundo e forma enquanto comunidade. O Portugal de hoje não se consegue interpretar no contexto de uma coisa chamada «Nação Portuguesa» - falamos do que os nossos maiores fizeram como quem relata as notícias do jornal sobre um país dos confins da Terra. Não cultivámos a ligação com o que a nossa gente fez, e com isso acabámos por nos ver na triste situação de não nos sentirmos em comunhão com esses feitos e, sobretudo, de achar que quem quer que proponha a reconversão deste triste estado de coisas é um fascista encartado. Como se resolve uma contradição desta magnitude entre o evidentemente normal num povo saudável e a opinião feita divulgar entre o grosso desse povo? Tal é, como dizem os americanos, a million dollar question.
Estou basicamente de acordo com o post, embora nem "8 nem 80". Ou seja, o "25 de Abril" não foi o dia das mentiras. Serviu para muita coisa. Quanto a comemorações (e já entrando tb. pelo comentário) não lhes vejo qq sentido. São apenas a liturgia de um regime, aquelas que esse regime entende e que fazem sentido nesse contexto para as figuras institucionais desse regime. O povo é mais praia e agradece o feriado, o que só revela sensatez. A participação democrática vê-se no dia a dia e essa sim desilude. Quanto ao mais sou federalista europeu e, no mínimo, iberista.
Caro senhor;
A participação democrática, como tudo na vida, carece de incentivo. Carece de fomento. Carece de uma luta tenaz contra - e cito-o - a mentalidade de praia e feriado, que denota não a sensatez mas a alienação do Povo.
Todos os regimes precisam da sua «liturgia» se lho quiser chamar. Da sua mitologia cívica, dos seus símbolos agregadores da população, dos seus pontos fulcrais que inspirem o cidadão à particiapçaõ da vida política do seu Estado. Todos os países do Mundo percebem isto - vá o senhor a Itália, a França, a Espanha, à Alemanha, aos EUA ou ao Reino Unido, e verá como os fastos pátrios, os maiores da Nação, a História, as datas centrais, são lá acarinhadas com desvelo. E como de razão - uma Pátria puramente abstracta, puramente ideal, que não tenha carne, que não tenha cheiro, que não tenha vida, que que não tenha sangue a pulsar nas veias, que nunca se palpe, nem celebre, nem recorde, está fadada a tornar-se, paulatina e irremediavelmente, uma velha caturrice de uns poucos, enquanto a maioria vive cada vez mais entre a novela e a broa, um tanto dolente, um tanto letárgica - até ao dia em que, como profetizava Eça n'«A Catástrofe», acordam com uma sentinela estrangeira na Rua do Arsenal, fruto do seu desligamento em relação à Pátria.
Isto talvez não o incomode. Mas a mim horroriza-me: e digo, desassombradamente, que urge revitalizar o amor pátrio entre as pessoas, pela celebração das grandes efemérides nacionais.
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