Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

As estatísticas, por vezes, mentem

«Na verdade, as estatísticas são retratos da realidade, não são a realidade. Podemos saber de cor milhares de estatísticas sobre o sistema de ensino, mas nunca entenderemos nada sem passar por uma sala de aula.» José Manuel Fernandes In Público, 05 de Maio 2008

Ora aqui está, na minha óptica, uma verdade incontestável!
Incontornável é, também, a invariável incontinência de medidas elaboradas, no interior de gabinetes bafientos, saídas de mentes brilhantes (?) mas com um desconhecimento aterrador da realidade que se vive nas nossas escolas. Não se auscultam os operacionais e decide-se com base em pressupostos, tidos como infalíveis, importados de países como a Finlândia ou a Suécia, países culturalmente e socialmente tão distantes dos nossos compatriotas, como um adepto lampião se encontra em relação a um leão ou a um dragão.
Sem se experimentar, sem se pisar o estrado de uma sala de aula, sem um relacionamento efectivo com os alunos, pouco ou nada se poderá implementar de forma acertada. Como refere JMF, « (…podemos ter visto dezenas de fotografias sobre obras de arte e locais maravilhosos, mas só os entenderemos quando estivermos lá, a vê-los, a senti-los.» Confirmo esta ideia, que saiu reforçada depois de ter entrado no Coliseu de Roma e pisado a capela Sistina. Há, de facto, algo de místico, encantador e simultaneamente arrepiante. Diz ainda o seguinte: «Podemos saber tudo, ou julgar que sabemos tudo sobre o Holocausto, por exemplo, mas haverá sempre, na nossa compreensão do horror, um antes e um depois de ter visitado Auschwitz.». Não estive no referido, e um dos mais conhecidos campos de concentração nazi, mas já visitei um antigo campo de morte, junto à capital da Baviera, ou seja, Munique, refiro-me a Dachau. A experiência é aterradora: fornos de cremação, salas de espera para as câmaras de gás (warten zimmer), objectos usados em torturas hediondas, as camaratas onde se empilhavam os judeus, fotos e vídeos da chegada das tropas aliadas…
Sentir a pulsação, tocar, cheirar, observar, apresentam-se-me como elementos indispensáveis ao desenvolvimento da consciência, desenvolvimento este que se apresenta como fulcral à tomada de decisões assertivas.
Na educação, como em qualquer outra área, o caminho tem que se fazer caminhando e não a pensar como se caminha da melhor forma e opinando aleatoriamente acerca dos trajectos a seguir.

4 comentários:

JOY disse...

Amigo Carreira


Não podia ser mais lúcido este texto
Parabéns

Um abraço
JOY

Rui Caetano disse...

Um texto profundo e digno de se ler e reler.

O Puma disse...

nA VERDADE O CAMINHO FAZ-SE CAMINHANDO
ESTAMOS ATRASADOS

susitour.com disse...

Carreira:
Concordo contigo. O estado da nossa educação só vai piorar, se a nossa ministra continuar com as suas políticas baseadas em ideias virtuais que não correpondem à verdadeira realidade das nossas escolas. Pobres das crianças, dos professores ...que acabam por ser meras "cobaias" das "experiências" sem fundamento realista a que são sujeitas...