
Sempre fui um criador de estórias. Já em criança gostava de criar realidades paralelas, que chegavam a ser relativamente complexas e bastante duradouras. Também tive a sorte de ter acesso desde muito jovem a vários géneros de literatura. E usufrui da possibilidade de ler apenas aquilo de que realmente gostava, tal como ainda hoje faço, sem imposições exteriores, sem orientações de transitórias modas intelectuais, que me imponham os seus dogmas, as suas referências. Nunca gostei de imposições… Já na escola, poucos foram os livros “obrigatórios” que li. Lia e leio apenas o que me agrada. A leitura tem de ser antes de tudo um “exercício de prazer pessoal”, tudo resto é acessório.
Conheci a obra de Tolkien ( teria de falar no mestre… ) ainda antes do “boom” cinematográfico, mas é apenas mais uma referência e não uma pedra basilar. Ao contrário de outros autores, não tive um contacto primordial com a literatura fantástica, propriamente dita. Isso veio a ser determinante em Goor.
Paralelamente aos livros, outra grande influência foi a profícua cultura televisiva e cinematográfica dos anos 80/90, em especial a vertente da ficção científica. Os meus gostos levavam-me de Júlio Verne a Rod Serling. Gostos esses que mantenho e cultivo. Os anos 80, em especial, tiveram uma “magia” muito especial, porque “descarregaram” sobre uma geração todo um caleidoscópio de novas emoções, ideias e hipóteses que potenciaram a centelha da fantasia, do sonho, que existe em todos nós.
Acrescem a estas influências as minhas próprias vivências, enriquecidas pelas minhas mudanças de residência e de ambientes. Algo que nem sempre foi isento de aspectos negativos, mas que me alargar horizontes
Goor - A Crónica de Feaglar sempre existiu no meu imaginário, apesar de apenas ter ganho forma escrita em 1996, por entre as aulas da Faculdade de Letras e muitas noites perdidas, sempre ajudado pelas sonoridades apropriadas – Enigma, Deep Forest, Enya, Within Temptation e muitos outros, dependendo das situações que ia escrevendo. Foi nessa altura que a estória de Goor se diferenciou de muitas outras, saindo do limbo mental em que se encontrava. Mas não foi fácil… Nunca poderá ser fácil transpor para o papel algo cujo suporte é meramente mental e decorre a um ritmo próprio, que nunca se compadece com as circunstâncias ou com o tempo real.
Goor relata as aventuras de um jovem rei e dos seus companheiros, num mundo em mudança, onde o futuro é algo ainda incerto. Em causa estará o próprio valor intrínseco do Homem e a sua determinação em sobreviver. Um universo à parte da nossa realidade, onde coabitam diversos povos com características e identidades próprias. Sobre esse mundo paira uma antiga profecia e as sombras de um terrível poder que se irá revelando, entre uma teia de segredos e mentiras provenientes de um passado obscuro. Mas desengane-se quem esperar encontrar apenas o repetido arquétipo da literatura fantástica. Aqui, os elfos, gnomos e anões não têm lugar e mesmo os poderes sobrenaturais são meras ferramentas, submetidas a uma vontade. Apesar de não dispensar certos ingredientes próprios do género, os acontecimentos relatados poderiam ter lugar no nosso mundo, no presente, passado ou futuro. Nesta estória o maior poder é a vontade humana, capaz do pior e do melhor. O Bem e o Mal não são por isso estanques. As personagens, mesmo poderosas e investidas do papel de heróis ou vilões, são sempre seres humanos, com as mesmas virtudes e defeitos de todos nós. Talvez por isso seja tão fácil para os leitores identificarem-se com uma determinada personagem ou acontecimento. Aliás, Goor pode até ser apreciado por pessoas que, geralmente, não gostem do género fantástico.
Não sendo um livro de moralidades, Goor alude a valores durante toda a perigosa jornada que lhe serve de base. Valores como a amizade ou a liberdade estão sempre presentes, pois esses são elementos essenciais da própria condição humana.
Por tudo isto, julgo que Goor não é unicamente uma obra de “high-fantasy”, antes um romance de aventuras épicas, adocicado com o toque mágico da fantasia. (
Pedro Ventura)